domingo, 9 de agosto de 2009

Michael Mann, O Último dos Autores


Por Cássio Starling Carlos

A ideia de autor no cinema, consolidada pela crítica francesa nos anos 50, costuma ter resultados nefastos quando adotada na correria e sem precaução. Já naquela época, certos autores cultuados pela tropa de choque dos “Cahiers du Cinéma” riam da obsessão dos franceses em catalogar e distinguir os que consideravam “artistas” dos que tratavam como meros “artesãos”.

Mais de meio século se passou e ainda testemunhamos diretores prestes a serem convertidos em “autores” terem de lidar com precaução diante dos efeitos nem sempre positivos associados a essa distinção. O caso mais recente é o de Michael Mann, que no mês passado teve sua obra elevada olimpicamente ao lugar de honra da mais alta das distinções cinéfilas, uma retrospectiva na Cinemateca Francesa.

Cauteloso, Mann deu uma entrevista ao hábil Serge Kaganski, crítico do semanário francês “Les Inrockuptibles”, quando da estreia de seu “Inimigos Públicos” no qual se posiciona de modo contrário às leituras que a crítica vem fazendo da fase mais recente de seu trabalho. Além desses esclarecimentos úteis, Mann explicita seu interesse estético do uso do digital e põe pingos nos is em relação a interpretações demasiado simbólicas que acompanharam a recepção crítica de “Inimigos Públicos”.

Leia abaixo alguns trechos:

Pergunta – Como muitos de seus filmes, “Inimigos Públicos” conta mais uma vez uma história em que um tira persegue um gângster: dois homens posicionados de cada lado da barreira moral. Modo de sugerir que tais barreiras são movediças, imprecisas?

Michael Mann – Meu interesse é por pessoas, por seres humanos, não pelo que Edgar J. Hoover, o diretor do FBI de 1924 a 1972, chamava de o Bem e o Mal. O que movia Hoover era uma ambição monomaníaca que não tinha mais nada a ver com um sentido objetivo de justiça. Eu creio que essa maneira de ver o mundo em categorias bem definidas é um pouco ingênua. Os indivíduos têm motivações complexas. Já conceitos tais como a verdade, a justiça, reduzidos a noções simplistas à moda americana, são úteis apenas para as HQs.

Dillinger foi um ser humano em toda sua complexidade. Eu não vejo nele nem um monstro, nem um sociopata. A vontade dele era ser popular, ser amado pelas pessoas, encontrar o grande amor... Ele não era alguém sedento de sangue. Quando foi acusado de ter intencionalmente matado um tira em Indiana, ele sempre alegou ser inocente. De fato, ele matou o tira, mas no calor da ação. Ele não pretendia ser o Super-Homem. Mesmo quando estava no auge da celebridade e era manchete de jornais, ele continuou a preparar os assaltos com sobriedade e democraticamente, em acordo com seus cúmplices. Ele nunca se deixou cegar por sua atividade e pela celebridade de suas ações, sempre manteve cabeça fria. Um personagem de cinema deve guardar a mesma complexidade que uma pessoa de verdade. Os personagens unidimensionais me entediam.

Pergunta - O filme se passa durante a Depressão: crise do sistema bancário, guerra contra o inimigo público, o que evoca certos aspectos do presente... Por meio do gênero e suas convenções, poderíamos ver uma crítica aos anos Bush?

Mann – Você pode, claro, mas não foi essa minha intenção. Quando começamos a trabalhar no filme, a crise atual ainda não havia acontecido. Ao contrário, a economia parecia a pleno vapor. A pré-produção teve início em 2007, eu comecei a filmar no início de 2008, a Bolsa estava muito bem.

Pergunta - Mas não se pode impedir de traçar um paralelo entre a “guerra contra o crime” que você mostra no filme e a “guerra contra o terrorismo”...

Mann – Não, de fato, eu absolutamente não tentei estabelecer nenhum paralelo entre o passado e o presente. Esse tipo de procedimento não me interessa. Não vou ao cinema para receber uma mensagem, mas para viver uma experiência. E a melhor experiência para mim pode ser encontrada numa realidade alternativa. Com Dillinger, tentei conduzir o espectador até lá, na América dos anos 30. Não se tratava de modo algum de trazer os anos 30 e Dillinger para o presente. Os únicos detalhes históricos de meu filme são a invenção por Hoover da “guerra contra o crime”, o fato de ele ter apontado Dillinger como “inimigo público número 1”, e que isso tenha cativado os americanos. Quando rodávamos o filme, era a época das primárias nas eleições. Nós tínhamos para consulta os jornais de 1933. Qualquer que fosse o período que consultássemos, Dillinger era a personalidade mais conhecida dos EUA, logo depois do presidente. Apesar disso, apesar de toda aquela atenção, ele continuou a viver “normalmente”: ele saía, ia jantar em restaurante, ia a boates, assaltava bancos...

Pergunta - Você é um estilista, um formalista. Para você o estilo é mais importante que a história?

Mann – Um filme estiloso cuja história é fraca atrairá nossa atenção durante cinco minutos, não mais. Um cinema puramente formalista é algo imaterial, não tem nenhum sentido. Minha prioridade é contar uma boa história e fazer de tal modo que a história tenha um impacto no espectador. O estilo é o que torna esse impacto mais ou menos forte e a tarefa do realizador é encontrar o melhor meio de veicular o impacto mais forte. Ponto final. Para o estilo enquanto tal, eu não estou nem aí. Assim como estou me lixando para a maneira como as pessoas me percebem: como um artista ou um “entertainer”... Para mim, o crime capital de um realizador é se tomar por isso ou aquilo. Se me tornasse vaidoso e me observasse filmar, eu me condenaria a um fracasso certo e total! Pensar em seu próprio estilo não passa de sedução imatura.

Pergunta - De qualquer modo, o estilo tem um pouco de importância...

Mann – Certamente! Mas se eu filmasse uma sequência estilisticamente estonteante, mas inútil à totalidade do filme, eu a cortaria e a eliminaria sem hesitar.

Pergunta - Você se encontra na ponta do trabalho com ferramentas digitais. Qual é o impacto desse tipo de recurso no seu trabalho?

Mann – No caso de “Inimigos Públicos”, filmar em digital deu à imagem um sentido mais agudo ao realismo, como se fosse um aumento de realidade, mais intenso que a verdade. Fizemos testes comparativos entre a câmera com película e a digital. A clássica deu resultados bem bons, do tipo belo filme de época. A digital me proporcionava a sensação de estar vivo em 1933, de ser contemporâneo da época no filme, de quase poder tocar na gota d’água que cai no carro preto. Essa sensação de extrema realidade era a que eu buscava. Não queria que o público visse meu filme como um truque retrô. Era preciso que o espectador tivesse a sensação de viver na história. Eu sempre fico satisfeito quando um filme tem o poder de me fazer embarcar nele e me fazer abandonar a realidade prosaica da vida, fico embasbacado quando o cinema me faz mergulhar num filme como no fundo de uma piscina, adoro essa sensação... Esquecer o tempo, esperar que o filme, a experiência, não acabe rápido.

Pergunta – Na França, consideramos o realizador como o autor de um filme. Nos EUA, é sobretudo o produtor. Onde você se situa nesse debate?

Mann – As coisas não são, assim, tão estanques. Nos Estados Unidos, pode-se apropriar do poder do qual se tem necessidade. Basta se conhecer suficientemente bem, saber o que se quer, do que é preciso para fazer seu filme. Às vezes, é preciso assumir certos riscos se você quer ter o controle. Pessoalmente, eu controlo o “final cut” há não muito tempo. Mas também gosto de ouvir a opinião do pessoal dos estúdios porque eles são inteligentes, sensíveis. O arquétipo hollywoodiano segundo o qual o estúdio é malvado frequentemente é falso. Ninguém nunca me obrigou a mudar isso ou aquilo, mas às vezes me fizeram observações, sugestões com frequência interessantes. Vou mesmo mais longe: hoje, temos menos problemas trabalhando com um grande estúdio do que com um produtor independente. Com um independente você é obrigado a lidar com dez produtores, 15 conselheiros que se consideram artistas e toda essa merda. Com um grande estúdio, você trabalha com grandes caras. Um tornado lançou os cenários pelos ares? Você dá de ombros, mantém o rumo e o problema estará resolvido em alguns dias. Não choramingamos, não gememos, somos profissionais.

Em tempo: Joinville não passa Inimigos Públicos nos cinemas. Mas Brusque sim. BRUSQUE! É a gota d´água. Chega.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A Serious Man

Aprendam a fazer um trailer com os irmãos Coen.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Cannibal Holocaust

Tem gente que volta de férias.
Eu volto de trabalho (2 semaninhas intensas).

Sempre deixei explícito aqui o meu gosto pelos mockumentaries (documentários falsos). Principalmente os que caem para o humor, como Zelig, Spinal Tap e Borat. Mas tem também uma linha bem eficaz que é a do terror como Cloverfield, Bruxa de Blair e o assunto desse tópico, CANNIBAL HOLOCAUST (1980).


O filme é um clássico do terror gore dirigido pelo seguidor do neo-realismo italiano, Ruggero Deodato, que queria fazer uma sátira à exploração da violência pela mídia e fazer seu mentor Roberto Rosselini feliz.
E assim fez sua obra-prima sobre antropólogos que vêm a América do Sul fazer um documentário sobre tribos canibais na Amazônia. Claro que os pesquisadores são devorados vivos (ou quase isso) e as filmagens foram encontradas seis meses depois. Deodato nunca afirmou que seu filme era um documentário, mas com sua técnica de filmagem do cinema verdade e maquiagem beirando a perfeição causou furor pelo mundo, tendo sua exibição proibida em praticamente todos os lugares, sendo taxado de suff film. Pra piorar, Deodato pediu aos atores que sumissem por um tempo para dar mais realismo ao universo criado pelo filme.

Resultado: Um juiz de Milão não tem lá grande olhar cinematográfico e achou que tudo era verdade. O diretor sofreu acusação de homicídio. Para evitar a prisão teve que caçar seus atores escondidos, mostra-los ao público junto com seus contratos e revelar as técnicas de filmagem e maquiagem.

O filme ainda é proibido em muito países, em grande parte por cenas de animais sendo mortos como essa:




Essa experiência toda ensinou uma lição importante para Deodato:

"NÃO FAÇA SUA SÁTIRA TÃO EFETIVA!"


Abaixo a cena final onde os produtores acabam de assistir o copião e saem decepcionados. Reparem na fala do produtor carregada de crítica social, que encerra o filme com chave de ouro.



Clássico!

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Colin Vive




Lembram do Colin? O filme de zumbi de 74 dólares?

Pois é. Tem novidades. Vi no UOL. Segue abaixo:


Um filme de terror que custou apenas US$ 74 (cerca de R$ 140) para ser produzido vai ser exibido nacionalmente na Grã-Bretanha.

Colin, a história de um homem que é mordido por um zumbi, morre e volta como morto-vivo para comer pessoas, foi filmado com uma câmera amadora portátil por Marc Price e um grupo de amigos.

Em entrevista à BBC Brasil, Price (que além de autor do roteiro também é o diretor e produtor do filme) disse que a ideia nasceu de uma brincadeira despretensiosa entre amigos e que nem sonhava com a repercussão que o filme está tendo.

Colin foi exibido em um festival de filmes de terror no País de Gales e acabou chamando a atenção dos organizadores, que recomendaram a produção a uma agente.

Para a surpresa do diretor, o filme acabou sendo exibido no Festival Cannes e recebeu uma oferta para distribuição na Grã-Bretanha.

"O que me deixa realmente feliz é pensar que esse filme pode inspirar outros a fazerem a mesma coisa, abrindo um mundo de possibilidades para pessoas criativas", disse.

"Hoje em dia, alguns celulares têm câmeras de alta definição, então é perfeitamente possível fazer um filme usando apenas um telefone".

Orçamento baixo

Colin foi filmado no País de Gales e na Inglaterra. A produção durou 18 meses. Enquanto editava o filme, Marc Price, de 30 anos, trabalhava para uma empresa de entregas em Londres.

Artista gráfico sem formação específica em cinema, Price disse que aprendeu muito do que sabe sobre filmes ouvindo depoimentos de diretores em DVDs.

"Com essa incrível revolução digital, muita gente se esquece de que as velhas técnicas de cinema ainda se aplicam".

Price disse que já está trabalhando em seu próximo filme e que vai tentar manter o orçamento baixo. A produção, no entanto, certamente não vai custar os mesmos US$ 74.

Colin chega aos cinemas britânicos em outubro, para coincidir com a festa do Halloween. A assessoria de Price informou que o filme será exibido também em São Paulo, no Festival Curta Fantástico, que será realizado em novembro.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

C'était un rendezvous

Lembram daquele clipe do Snow Patrol - Open your eyes, o qual vemos a subjetiva de um carro andando a milhão por paris, sem cortes, até que ele pára, o motorista desce e abraça uma garota que o espera?



Pois é. Fiquei sabendo agora a pouco que na verdade essa sequência toda é de um curta do Claude Lelouche, de 1976 chamado C'était un rendezvous (Foi um encontro). Quando vi o clipe do Snow Patrol achei que a produção era original, simples e tecnicamente nada inovador. Metido a cool, no máximo. Mas ao saber que a produção é de 30 e poucos anos atrás e um experimento de cinema-verdade a coisa mudou de perspectiva. Ainda mais ao saber que o Lelouch amarrou a câmera de 35 mm (um trambolho complicado, não as câmeras digitais de hoje) na frente de uma Mercedez e por não ter permissão para rodar em todas aquelas ruas de Paris, fez isso às 5 da manhã atravessando sinal vermelho, ao redor do Arco do Triunfo, Champs-Élysées, na contra-mão, sobre calçadas e a 180 Km/h. O único truque no filme foi substituir o som da Mercedez por de uma Ferrari para dar mais efeito. No final do passeio, todo a aventura se revela como a pressa do amante para encontrar a amada. Foi um encontro. Depois da primeira projeção do curta, Lelouch foi preso por botar em risco a segurança pública. Viva o cinema verdade!

Eis o curta na íntegra:

quinta-feira, 9 de julho de 2009

"O que eu aprendi", por Francis Ford Coppola


A revista Esquire tem uma sessão bem interessante chamada "What I´ve learned", onde diversas celebridades soltam frases aleatórias sobre suas carreiras, experiências e memórias em geral. Gostei da do Coppola e traduzo livremente abaixo alguns trechos:

Quando eu tinha 16 ou 17 anos, Eu queria ser um escritor. Eu queria ser um dramaturgo. Mas tudo o que eu escrevia era fraco. E eu consigo me lembrar de adormecer chorando porque eu não tinha talento que eu queria ter.

Você já assistiu Rushmore (Três é demais, de Wes Anderson)? Eu era como aquele garoto.

Eu tinha vinho na mesa o tempo todo. Mesmo quando criança a gente podia tomar. Nós misturávamos com gengibirra ou soda.

Eu fiz algo terrível pro meu pai. Quando tinha 12 ou 13 anos, eu trabalhava no correio. E eu sabia que o nome do chefão do departamento de música da Paramount era Louis Lipstone. Então eu escrevi "Querido Senhor Coppola: Nós o selecionamos para escrever uma trilha sonora. Por favor venha para Los Angeles imediatamente para começar o serviço. Sinceramente, Louis Lipstone". E eu entreguei de bicicleta. Meu pai ficou tão feliz. Então tive que contar que era mentira. Ele ficou furioso. Naqueles tempos, crianças apanhavam. Com cinto. Eu sei por que eu fiz aquilo: Eu queria que ele recebesse aquele telegrama. Nós fazemos boas que são ruins.

Pessoas acham que o pior filme que eu fiz foi Jack. Mas hoje, quando eu vejo os filmes que fiz, Jack é um dos melhores. Ninguém sabe disso. Se as pessoas o odeiam, elas odeiam. Eu só queria trabalhar com o Robin Williams.

Eu nunca fui desleixado com o dinheiro dos outros. Só com o meu. Porque eu acho que posso.

Eu tenho mais imaginação fértil que eu tenho talento. Eu cozinho idéias. É apenas uma característica.

Eu admiro muito pessoas como Woody Allen, que todo ano escrevem um roteiro original. É impressionante. Eu sempre quis poder fazer isso.

Fazer bem feito é ser abundande. Essa é minha tendência. Se eu cozinho uma refeição, eu cozinho muito e muitas coisas. Eu estava vendo um filme do Cecil B. DeMille noite passada baseado em Cleopatra e eu percebi quantas partes da história real ele deixou de lado. Muito da arte de filmar é fazer menos. Aspirar o menos.

Você tem que enxergar as coisas de acordo com sua expectativa de vida.

O final estava claro e Michael se corrompeu. Tinha acabado. Então não entendi porque quiseram fazer outro Poderoso Chefão.

Nunca assisti Os Sopranos. Eu não tenho interesse na máfia.

Alguns expectadores adoram ficar até o final das projeções e ver todos os nomes dos créditos. Estariam procurando parentes?

O que eu deveria fazer agora? Eu poderia fazer algo mais ambicioso. Ou menos. Melhor menos. Para mim menos ambicioso é mais ambicioso.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

O Ataque dos Clones!


Desde que eu me lembro como cinéfilo alfabetizado, ou seja, desde o dia em que vi o primeiro filme no cinema (E.T.), me gabo de ser uma pessoa bem informada e que se informa antecipadamente sobre os detalhes de qualquer filme que assisto. Diretor, ator, roteirista, estúdio, sinopse, prêmios, repercursão entre o público e a crítica, etc. Tanto que fico indignado quando na locadora, ao pegar um filme que já aluguei antes, o funcionário tem que dizer: "O senhor já pegou esse filme, vai levar assim mesmo?". Pra mim é ofensivo, mas consigo imaginar gente desinformada e lerda que pega um filme repetido sem saber e reclama dos funcionários que não advertiram devidamente. Ou que pegam um filme que é uma bosta e briga por que não ter sido avertido. É gente que odiou simplesmente um dos 5 melhores filmes desse século até agora, Brilho eterno de uma mente sem lembranças (que um dia farei a devida homenagem aqui) por achar que o filme seria outro sucesso pastelão cheio de caretas de Jim Carrey. Enfim. Azar de quem de não se informa, é o que sempre digo.

Relato isso com certa paixão porque já fui traído pela minha própria arrogância. O ano era 2000. Estava ansioso para ver o então novo trabalho de Tim Burton, A lenda do cavaleiro sem cabeça (Sleepy Hollow). O filme estava já ha algum tempo no cinema (não em Joinville, claro) e, para minha surpresa, vi o título na locadora. Claro que estranhei a rapidez com que o lançamento aterrisou na loja. Pensei que poderia ser uma cópia importada talvez, pirata quem sabe. De qualquer forma agarrei rapidamente o título, corri pro balcão e levei pra casa. Quando o filme começou reparei que não aparecia nunca o Johnny Depp e nem a Christina Ricci. Tampouco o ambiente parecie "Timburtonesco". Peguei a caixa e analisei com mais cuidado. A capa era bem escura com uma imagem estilizada de um cavaleiro sem cabeça e o título em destaque, porém sem indicar o nome do diretor e nem do elenco. Quando olho para o verso, percebo que peguei uma versão tosca da história feita por alguma produtora B, que agilizou a produção no embalo da notícia de Tim Burton no projeto e lançaram rapidamente para pegarem a onda do filme e lucrar com isso. Caí como um pato. Foi a minha maior vergonha como cinéfilo. E a única nessa categoria de burrada. Desde este episódio isso ficou mais forte em mim. Digo que hoje, a chance de eu me desapontar é zero. Sou um cara que me informo tanto sobre filmes que muitas vezes nem preciso assiti-los para poder discutir sobre eles. Já sei que filmes são bons e ruins sem precisar ve-los. Às vezes eles me surpreendem para o bem. Nunca para o mal. Isso me economiza uma barbaridade em ingressos e locações. Mas sei que muita gente não tem tempo, nem paixão para adquirir essa neura e acabam se decepcionando muito. Mesmo assim não existe ninguém minimamente normal no mundo que não goste de um filme sequer. Por isso as pessoas continuam assistindo filmes bons e ruins mesmo quando suas espectativas são destroçadas.

Existe um filão interessante na indústria cinematográfica de filmes baratos e rápidos de serem produzidos e lançados diretamente em video que vão na onda de blockbusters usando um título semi-homônimo (não sei o que a nova gramática diz dessa palavra), com história parecida, elencos desconhecidíssimos, restrições orçamentárias e técnicas aliadas a muita cara de pau.
É o caso da "The Asylum", que começou como produtora de filmes trash e achou nesse filão seus próprios sucessos comerciais clonados como Transmorphers, Pirates of the Treasure Island, The Da Vinci Treasure, 18 Year Old Virgin e Snakes on a Train.

O produtor da The Asylum, David Michael Latt, ao ser questionado sobre a ética nesse tipo de produção, se defendeu dizendo que não tem a intenção de enganar ninguém. “Apenas quero que meus filmes sejam vistos. Outro estúdio pode fazer um filme com robôs gigantes, cujo lançamento coincida com o de Transformers, e chamá-lo de ‘Robot Wars’. Nós chamamos o nosso de Transmorphers,” justificou. Pode ser até que os filmes deles sejam melhores que os blockbusters que o inspiraram, mas para garantir sua satisfação, faça como eu: INFORME-SE!

Aqui vai o trailer de Transmorphers 2 - The Fall of Man



Ah, vai... não parece tãããããão ruim, né?