segunda-feira, 27 de julho de 2009

Colin Vive




Lembram do Colin? O filme de zumbi de 74 dólares?

Pois é. Tem novidades. Vi no UOL. Segue abaixo:


Um filme de terror que custou apenas US$ 74 (cerca de R$ 140) para ser produzido vai ser exibido nacionalmente na Grã-Bretanha.

Colin, a história de um homem que é mordido por um zumbi, morre e volta como morto-vivo para comer pessoas, foi filmado com uma câmera amadora portátil por Marc Price e um grupo de amigos.

Em entrevista à BBC Brasil, Price (que além de autor do roteiro também é o diretor e produtor do filme) disse que a ideia nasceu de uma brincadeira despretensiosa entre amigos e que nem sonhava com a repercussão que o filme está tendo.

Colin foi exibido em um festival de filmes de terror no País de Gales e acabou chamando a atenção dos organizadores, que recomendaram a produção a uma agente.

Para a surpresa do diretor, o filme acabou sendo exibido no Festival Cannes e recebeu uma oferta para distribuição na Grã-Bretanha.

"O que me deixa realmente feliz é pensar que esse filme pode inspirar outros a fazerem a mesma coisa, abrindo um mundo de possibilidades para pessoas criativas", disse.

"Hoje em dia, alguns celulares têm câmeras de alta definição, então é perfeitamente possível fazer um filme usando apenas um telefone".

Orçamento baixo

Colin foi filmado no País de Gales e na Inglaterra. A produção durou 18 meses. Enquanto editava o filme, Marc Price, de 30 anos, trabalhava para uma empresa de entregas em Londres.

Artista gráfico sem formação específica em cinema, Price disse que aprendeu muito do que sabe sobre filmes ouvindo depoimentos de diretores em DVDs.

"Com essa incrível revolução digital, muita gente se esquece de que as velhas técnicas de cinema ainda se aplicam".

Price disse que já está trabalhando em seu próximo filme e que vai tentar manter o orçamento baixo. A produção, no entanto, certamente não vai custar os mesmos US$ 74.

Colin chega aos cinemas britânicos em outubro, para coincidir com a festa do Halloween. A assessoria de Price informou que o filme será exibido também em São Paulo, no Festival Curta Fantástico, que será realizado em novembro.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

C'était un rendezvous

Lembram daquele clipe do Snow Patrol - Open your eyes, o qual vemos a subjetiva de um carro andando a milhão por paris, sem cortes, até que ele pára, o motorista desce e abraça uma garota que o espera?



Pois é. Fiquei sabendo agora a pouco que na verdade essa sequência toda é de um curta do Claude Lelouche, de 1976 chamado C'était un rendezvous (Foi um encontro). Quando vi o clipe do Snow Patrol achei que a produção era original, simples e tecnicamente nada inovador. Metido a cool, no máximo. Mas ao saber que a produção é de 30 e poucos anos atrás e um experimento de cinema-verdade a coisa mudou de perspectiva. Ainda mais ao saber que o Lelouch amarrou a câmera de 35 mm (um trambolho complicado, não as câmeras digitais de hoje) na frente de uma Mercedez e por não ter permissão para rodar em todas aquelas ruas de Paris, fez isso às 5 da manhã atravessando sinal vermelho, ao redor do Arco do Triunfo, Champs-Élysées, na contra-mão, sobre calçadas e a 180 Km/h. O único truque no filme foi substituir o som da Mercedez por de uma Ferrari para dar mais efeito. No final do passeio, todo a aventura se revela como a pressa do amante para encontrar a amada. Foi um encontro. Depois da primeira projeção do curta, Lelouch foi preso por botar em risco a segurança pública. Viva o cinema verdade!

Eis o curta na íntegra:

quinta-feira, 9 de julho de 2009

"O que eu aprendi", por Francis Ford Coppola


A revista Esquire tem uma sessão bem interessante chamada "What I´ve learned", onde diversas celebridades soltam frases aleatórias sobre suas carreiras, experiências e memórias em geral. Gostei da do Coppola e traduzo livremente abaixo alguns trechos:

Quando eu tinha 16 ou 17 anos, Eu queria ser um escritor. Eu queria ser um dramaturgo. Mas tudo o que eu escrevia era fraco. E eu consigo me lembrar de adormecer chorando porque eu não tinha talento que eu queria ter.

Você já assistiu Rushmore (Três é demais, de Wes Anderson)? Eu era como aquele garoto.

Eu tinha vinho na mesa o tempo todo. Mesmo quando criança a gente podia tomar. Nós misturávamos com gengibirra ou soda.

Eu fiz algo terrível pro meu pai. Quando tinha 12 ou 13 anos, eu trabalhava no correio. E eu sabia que o nome do chefão do departamento de música da Paramount era Louis Lipstone. Então eu escrevi "Querido Senhor Coppola: Nós o selecionamos para escrever uma trilha sonora. Por favor venha para Los Angeles imediatamente para começar o serviço. Sinceramente, Louis Lipstone". E eu entreguei de bicicleta. Meu pai ficou tão feliz. Então tive que contar que era mentira. Ele ficou furioso. Naqueles tempos, crianças apanhavam. Com cinto. Eu sei por que eu fiz aquilo: Eu queria que ele recebesse aquele telegrama. Nós fazemos boas que são ruins.

Pessoas acham que o pior filme que eu fiz foi Jack. Mas hoje, quando eu vejo os filmes que fiz, Jack é um dos melhores. Ninguém sabe disso. Se as pessoas o odeiam, elas odeiam. Eu só queria trabalhar com o Robin Williams.

Eu nunca fui desleixado com o dinheiro dos outros. Só com o meu. Porque eu acho que posso.

Eu tenho mais imaginação fértil que eu tenho talento. Eu cozinho idéias. É apenas uma característica.

Eu admiro muito pessoas como Woody Allen, que todo ano escrevem um roteiro original. É impressionante. Eu sempre quis poder fazer isso.

Fazer bem feito é ser abundande. Essa é minha tendência. Se eu cozinho uma refeição, eu cozinho muito e muitas coisas. Eu estava vendo um filme do Cecil B. DeMille noite passada baseado em Cleopatra e eu percebi quantas partes da história real ele deixou de lado. Muito da arte de filmar é fazer menos. Aspirar o menos.

Você tem que enxergar as coisas de acordo com sua expectativa de vida.

O final estava claro e Michael se corrompeu. Tinha acabado. Então não entendi porque quiseram fazer outro Poderoso Chefão.

Nunca assisti Os Sopranos. Eu não tenho interesse na máfia.

Alguns expectadores adoram ficar até o final das projeções e ver todos os nomes dos créditos. Estariam procurando parentes?

O que eu deveria fazer agora? Eu poderia fazer algo mais ambicioso. Ou menos. Melhor menos. Para mim menos ambicioso é mais ambicioso.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

O Ataque dos Clones!


Desde que eu me lembro como cinéfilo alfabetizado, ou seja, desde o dia em que vi o primeiro filme no cinema (E.T.), me gabo de ser uma pessoa bem informada e que se informa antecipadamente sobre os detalhes de qualquer filme que assisto. Diretor, ator, roteirista, estúdio, sinopse, prêmios, repercursão entre o público e a crítica, etc. Tanto que fico indignado quando na locadora, ao pegar um filme que já aluguei antes, o funcionário tem que dizer: "O senhor já pegou esse filme, vai levar assim mesmo?". Pra mim é ofensivo, mas consigo imaginar gente desinformada e lerda que pega um filme repetido sem saber e reclama dos funcionários que não advertiram devidamente. Ou que pegam um filme que é uma bosta e briga por que não ter sido avertido. É gente que odiou simplesmente um dos 5 melhores filmes desse século até agora, Brilho eterno de uma mente sem lembranças (que um dia farei a devida homenagem aqui) por achar que o filme seria outro sucesso pastelão cheio de caretas de Jim Carrey. Enfim. Azar de quem de não se informa, é o que sempre digo.

Relato isso com certa paixão porque já fui traído pela minha própria arrogância. O ano era 2000. Estava ansioso para ver o então novo trabalho de Tim Burton, A lenda do cavaleiro sem cabeça (Sleepy Hollow). O filme estava já ha algum tempo no cinema (não em Joinville, claro) e, para minha surpresa, vi o título na locadora. Claro que estranhei a rapidez com que o lançamento aterrisou na loja. Pensei que poderia ser uma cópia importada talvez, pirata quem sabe. De qualquer forma agarrei rapidamente o título, corri pro balcão e levei pra casa. Quando o filme começou reparei que não aparecia nunca o Johnny Depp e nem a Christina Ricci. Tampouco o ambiente parecie "Timburtonesco". Peguei a caixa e analisei com mais cuidado. A capa era bem escura com uma imagem estilizada de um cavaleiro sem cabeça e o título em destaque, porém sem indicar o nome do diretor e nem do elenco. Quando olho para o verso, percebo que peguei uma versão tosca da história feita por alguma produtora B, que agilizou a produção no embalo da notícia de Tim Burton no projeto e lançaram rapidamente para pegarem a onda do filme e lucrar com isso. Caí como um pato. Foi a minha maior vergonha como cinéfilo. E a única nessa categoria de burrada. Desde este episódio isso ficou mais forte em mim. Digo que hoje, a chance de eu me desapontar é zero. Sou um cara que me informo tanto sobre filmes que muitas vezes nem preciso assiti-los para poder discutir sobre eles. Já sei que filmes são bons e ruins sem precisar ve-los. Às vezes eles me surpreendem para o bem. Nunca para o mal. Isso me economiza uma barbaridade em ingressos e locações. Mas sei que muita gente não tem tempo, nem paixão para adquirir essa neura e acabam se decepcionando muito. Mesmo assim não existe ninguém minimamente normal no mundo que não goste de um filme sequer. Por isso as pessoas continuam assistindo filmes bons e ruins mesmo quando suas espectativas são destroçadas.

Existe um filão interessante na indústria cinematográfica de filmes baratos e rápidos de serem produzidos e lançados diretamente em video que vão na onda de blockbusters usando um título semi-homônimo (não sei o que a nova gramática diz dessa palavra), com história parecida, elencos desconhecidíssimos, restrições orçamentárias e técnicas aliadas a muita cara de pau.
É o caso da "The Asylum", que começou como produtora de filmes trash e achou nesse filão seus próprios sucessos comerciais clonados como Transmorphers, Pirates of the Treasure Island, The Da Vinci Treasure, 18 Year Old Virgin e Snakes on a Train.

O produtor da The Asylum, David Michael Latt, ao ser questionado sobre a ética nesse tipo de produção, se defendeu dizendo que não tem a intenção de enganar ninguém. “Apenas quero que meus filmes sejam vistos. Outro estúdio pode fazer um filme com robôs gigantes, cujo lançamento coincida com o de Transformers, e chamá-lo de ‘Robot Wars’. Nós chamamos o nosso de Transmorphers,” justificou. Pode ser até que os filmes deles sejam melhores que os blockbusters que o inspiraram, mas para garantir sua satisfação, faça como eu: INFORME-SE!

Aqui vai o trailer de Transmorphers 2 - The Fall of Man



Ah, vai... não parece tãããããão ruim, né?

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Besouro - o filme

Maravilha!

Fico empolgado quando vejo que o cinema nacional ta saindo da mesmice explorando outros gêneros menos explorados por aqui.

Segundo o Omelete, o filme é baseado no livro Feijoada no Paraíso. A trama relembra a história do capoeirista Manoel Henrique Pereira (1895-1924), o Besouro Mangangá, também conhecido como Besouro Cordão de Ouro. Para justificar as piruetas do wire-fu, o filme mistura a história da luta contra a escravidão no interior da Bahia com elementos do folclore do candomblé.

Genial.

terça-feira, 23 de junho de 2009

O segredo do terror

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Dr. Fantástico - a concepção.


Há 45 anos era lançado meu filme favorito. Nunca escrevi nada sobre ele pois não conseguir descrever tudo o que sinto. E filmes favoritos merecem melhor tratamento. Um dia quem sabe declare meu amor pelo Peter Sellers e pelo Stanley-Malucobeleza-Kubrick. Enquanto isso divulgo uma matéria deliciosa sobre a concepção do filme que achei aqui e resolvi traduzir:


4 de Novembro de 1961. A carta enderaçada ao escritor Peter George parecia estranha vindo de um homem que havia dirigido atores como Laurence Olivier, Kirk Douglas e James Mason. Era manuscrita pelo próprio diretor com um certo toque de modéstia: "Primeiro deixa eu te dizer quem eu sou", assim começava. "Eu sou um diretor de cinema (Glória feita de sangue, Spartacus, Lolita). Eu estive na Inglaterra no último ano e retornei a Nova Iorque semana passada na expectativa de contatar você aqui.

Stanley Kubrick então explicou que ele se interesseou pela "situação nuclear" e estava procurando o material certo para adaptar para o cinema: "Eu estou ansioso em busca de uma história nessa área e seu livro está MUITO PRÓXIMO disso", ele disse a George. Sendo Kubrick, entretanto, ele não resistiu oferecer algumas algumas críticas do livro que ele achou que o tornaria inviável. Uma dessas críticas, ironicamente, era a idéia de dispositivos de hidrogênio escondidos nos Urais feitos para detonar automaticamente caso a União Soviética fosse vítima de um ataque nuclear - o que seria notavelmente lembrado como "The Doomsday Device" (dispositivo do fim do mundo) na obra prima "Dr. Fantástico ou: Como Aprendi A Parar De Me Preocupar E Amar A Bomba". Menos de 2 meses após essa carta, George e Kubrick começaram a trabalhar no roteiro para o filme.

Isso então virou uma anedota lendária: Stanley Kubrick começou a adaptar o seríssimo thriller nuclear "Two Hours to Doom" (Lançado nos EUA como "Red Alert") e , de repente, desconcertado pelo ridículo disso tudo, transformou a história num pesadelo satírico seminal. Então é surpreendente que quem ler o livro de George descobrirá o quanta semelhança ele realmente tem com Dr. Fantástico - a estrutura, o incidente, personangens. As similaridades e as diferenças merecem uma análise de como esse clássico se recusa a envelhecer e como ainda mantém sua habilidade de provocar simultaneamente risos e terror, 45 anos após seu lançamento.

O filme segue o livro intercalando entre o Pentágono, a base da Força Aérea onde começa a crise e o caça que invade o território russo. No livro o General Quinten (General Jack D. Ripper no filme) declara que os EUA estão em uma guerra com os russos, isola a sua base militar "Sonora" de comando estratégico e ordena seus caças que a essa altura estão aos arredores da USSR que bombardeiem seus alvos. No Pentágono, General Franklin (Col. Buck Turgidson no filme), humilhado por essa decisão inesperada de um de seus oficias, tem que confrontar o Presidente sobre o que ocorreu. Enquanto o faz, entretanto, os outros generais começam a pensar que talvez a melhor forma de agir nessa ocasião é seguir a ofensiva maluca de Quinten com força total. O Presidente preocupado com a moralidade desse ato e o fato dos soviéticos talvez terem o dispositivo do fim do mundo, decide convidar o embaixador russo para a sala de guerra do Pentágono para coloca-lo em contato com o Premier Russo e convence-lo que o ataque não foi intencional e trabalharem juntos para que ambos cancelem os ataques ou derrubem os aviões americanos. De volta a base militar de "Sonora", seu executivo, Major Paul Howard (Mandrake no filme), confronta Quinten por sua decisão e tenta cancelar o ataque descobrindo qual o código para abortar a missão (que é revelado no final do filme ser as primeira letras de "Peace On Earth", paz na terra) . Enquanto isso militares americanos tentam atacar essa base para conseguir o código também.

A essa altura a equipe do caça Alabama Angel (Leper Colony no filme), convencidos que os EUA estão sendo vítimas de uma horrível ataque nuclear, seguem invadindo território russo para atacar com suas armas nucleares. Nem precisa dizer que o livro não termina com Dr. Fantástico falando passionalmente sobre preencher os abrigos nas minas com mulheres sensuais para repovoar a terra nem tem um cowboy "cavalgando" um míssil. Ao invés disso, o caça Alabama Angel erra o alvo e acaba bombardeando um pedaço de terra desabitado, mas não antes do presidente oferecer Atlantic City como bode sacrificado para os Soviéticos para compensar as perdas presumidas do lado deles.

A tensão do livro é quase insuportável, e Kubrick reconhecia uma boa estrutura de história quando via uma. Mas enquanto George (ex-oficial da aeronáutica) apresenta aparatos militares que funcionam suavemente, Kubrick parece mais interessado em exatamente o oposto, destacando os meios em que a comunicação falha e traz o caos. Muito do humor de Dr. Fantástico é construído em ligações telefônicas quase falhas - da ligação que informa Turgidson da ofensica nuclear de Riper enquanto está no banheiro até desastrosa tentativa do Presidente americano tentar falar pelo telefone com o bêbado Premier russo (Olá, Dmitri? Escute, eu não consigo ouvir bem, você poderia baixar a música um pouquinho?) até a inabilidade de Mandrake em achar trocado para lugar pra Casa Branca de um orelhão.

Como Robert Kolker observou em seu estudo do cinema americano, A Cinema of Loneliness:

Não há interrelação entre esses lugares, sem comunicação. Cada um opera de sua forma. Mesmo dentro dessas áreas, ninguém fala com ninguém, apenas para si mesmo. Ninguém ouve, ninguém responde... Na verdade (Dr. Fantástico) é um filme sobre linguagem que cria sua própria destruição, sua própria morte e a morte do mundo.


Kubrick foi sempre fascinado pela quebra de comunicação (seu próximo filme, 2001: Uma Odisséia no Espaço explora isso mais a fundo). Mas ele também é fascinado pelos paradoxos da própria linguagem. De fato, era em partes a linguagem da guerra moderna que o levou a seguir uma rota cômica nesse filme.

Após os rascunhos iniciais, Kubrick e seu parceiro de produção James B. Harris, com quem ele fez O Grande Golpe, Glória Feita de Sangue, e Lolita trabalharam o roteiro em Nova Iorque. "Eles viraram noites mexendo com o impulso de injetar humor", diz Mick Broderick, o autor de Nuclear Movies e um extenso estudo sobre Dr. Fantástico. Harris em breve deixaria o projeto para construir sua própria carreira de diretor com o elogiado filme O Caso Bedford sobre o confronto entre um destroyer americano e um submarino russo. Mas quando Kubrick chamou seu antigo parceiro dizendo que decidiu transformar o filme realmente em uma comédia, harris estava no mínimo cético. "O garoto vai arruinar a sua carreira", pensou Harris.

O absurdo hilariante da situação nunca deixou de atormentar o diretor enquanto ele e George trabalhavam no filme. Kubrick estava aprendendo muito sobre o pensamento por trás da estratégia termonuclear. O diretor, notório por pesquisar obsessivamente os temas em que trabalha, ficou próximo de inúmeros cientistas e pensadores do tema, alguns com a ajuda de George, incluindo o estrategista Herman Kahn, o qual falava friamente sobre "megadeaths", uma palavra criada nos anos 50 para descrever 1 milhão de mortes. Assim como Kubrick contou para Joseph Heller:

Incongruência é certamente uma das fontes de risadas - a incongruência de sentar em uma sala e falar com alguém que tem um quadro grande na parede escrito o item "ambientes pós-guerra trágicos mas distinguiveis" e este diz "um a dez milhões de mortos"... tem alguma coisa tão absurda e irral ao falar disso que é quase impossível de levar a sério.

Mas talvez Terry Southern descreveu melhor. Num artigo nunca publicado que ele mandou para a Esquire, o escritor americano que virou o próximo colaborador de Kubrick no projeto escreveu:

Estratégias nucleares sofisiticadas também tem linguagem própria. Elas vão envolvendo gradualmente terminologias livres de conotação moral ou até mesmo humanas. Elas não usam, por exemplo, nenhuma forma da palavra ataque, mas ao invés usam o termo "tomar" - o que soa mais como algo num jogo de tabuleiro que o que realmente significa.

Um pioneiro do Novo Jornalismo e uma inspiração para os Beats, Southern era um perito nas formas alienantes da linguagem. (Uma lembrança sua da produção de Dr. Fantástico que escreveu para o Grand Street em 1994 está cheio de instantes de falha de comunicação, mais notavelmente na sua análise do ator caipira recém-chegado Slim Pickens e do produtor britânico Victor Lyndon que não conseguiam se entender). Ele também estava familiarizado com os diálogos requeridos em todos os ambientes do filme. "O filme se tornou algo sobre paradoxos, inconsistências e retórica. Foi a genialidade de Kubrick que fez isso tudo funcionar, mas nem ele nem George tinham um material suficientemente bom até então. Eles tinham que ter algo de atraente dentro desse humor dicotômico. Aí é que entrou Terry Southern". Disse Broderick.

Southern foi contratado quando as cameras já estavam rodando e trabalhou no roteiro por um breve período, frequentemente trabalhando no banco de trás do carro de Kubrick (um Bentley) o qual foi equipado com lâmpadas e máquina de escrever, durante o percurso de casa até os estúdios de Shepperton. Sua contribuição transformou o que era uma comédia disforme em algo muito mais definido e específico. "Terry tinha um refinado senso de humor", lembra seu filho, Nile Southern. "Ele era bem treinado em manter o realismo... Ele entendia que na comédia, você tem que manter as coisas críveis, senão tudo desaba.

E realmente, no papel, o humor de Dr. Fantástico é surpreendetemente sutil. Pela primeira metade do filme, a maior parte das cenas dançam no limite da comédia, com elementos cômicos aparecendo apenas brevemente. Incrivelmente, dá pra ver alguns momentos embrionários cômicos mesmo no livro. Veja essa cena, quando Howard, tendo ouvido transmissão local de rádio e se convence que os russos não estão atacando a América, marcha até o gabinete de Quinten, que acabou de lançar a Terceira Guerra Mundial. Quinten diz:

"Nós aprendemos muito sobre o Comunismo e seus seguidores. Nós também sabemos que podemos ser atacados a qualquer momento. Então, suponha que um ataque súbito destrua todas as bases, exceto essa. Suponha que alguém de alto escalão saiba o código do dia do general. Alguém que seja um comunista, ou um simpatizante.

"Isso nem é uma possibilidade",
diz Howard nervoso.

"Você está errado, Paul. É uma possibilidade. Num mundo que pode se contruir uma bomba atômica e gerar suas próprias luas artificiais, até contemplar a viagem espacial, nada é impossível. Nada. Oh, eu concordo que a possibilidade é bem remota, mas ela existe. De qualquer forma, suponha que as coisas aconteceram como eu disse."


Há uma oportunidade natural para a comédia no final - uma que George certamente não usa. Ele quase usa duas páginas depois, quando Howard fala para Quinden que "eles estão moralmente errado" e o superioro interrompe, "Eu argumentaria isso. Mas vamos nos deixar levar pelo momento"

Tais pivôs eram exatamente o que kubrick estava procurando. Breves, sutis instantes de humor que poderiam jogar a cena para outra direção. Nessa materia para a Esquire, Southern oferece uma citação de Kubrick que diz o quanto o diretor quis o humor dentro do filme: "Eu acho que essa surpresa... mesmo que aconteça no amor, na guerra, nos negócios ou qualquer coisa, produz maior efeito de todos os elementos. Ele dá ao momento a emoção de uma posição para a outra e você sente este empurrão extra de arrepio e descoberta... As pessoas não gostam que contem tudo para elas - Quero dizer, eu não acho que elas não gostam nem mesmo de serem avisadas que seu ziper está aberto."

O que também ajudou foi que Kubrick nunca abandonou a idéia de fazer um thriller político. Dr. Fantástico se mantém entre dois impulsos que emergiram no final dos anos 50 e começo dos 60. "A sociedade americana estava começando a ser mais autocrítica", diz Broderick. "O impluso satírico começava a emergir através do trabalho de Jules Feiffer, Revista MAD, e outras publicações satirizndo Eisenhower". Ao mesmo tempo, entretanto, dramas políticos e thrillers começaram a confrontar as sagradas instituições políticas, em particular os complexos industriais-militares: Dr. Fantástico pode ser uma comédia, mas também se mantém ao lado de filmes como Seven Days in May, Sob o Domínio do Mal, Vassalos da Ambição, Limite de Segurança (este foi processado por George e Kubrick pela absurda semelhança com o livro)

Podermos argumentar que Red Alert nunca realmente ficou ultrapassado. Ele ainda está aqui, escondido na comédia de Dr. Fantástico. Mesmo tirando todo o humor da primeira metade do filme, ainda temos uma grande drama de suspense sobre a era nuclear. Talvez por causa disso mesmo quando rindo da era nuclear, Kubrick mantinha seus medos. Broderick descobriu que durante 1961 e 1962., o diretor, convencido que a guerra era inevitável, começou seus planos de se mudar com sua família e trabalho para a Austrália: uma versão real das minas subterrâneas de Dr. Fantástico. "Ele citaria os judeus que viram o Holocausto chegando esaíram da Alemanha". diz Broderick. "Ele honestamente sentiu que poderia se mudar para a Austrália e continuar a fazer filmes por lá depois de uma guerra nuclear". Depois de viver a crise cubana dos mísseis, entretanto, ele mudou de idéia, decidinco que Dr. Fantástico seria sua resposta para os absurdos da guerra nuclear. Talvez, dizendo de outra maneira, Kubrick finalmente achou uma forma de parar de se preocupar e amar a bomba.